Meio Ambiente

A CRISE DA AGUA

A CRISE DA ÁGUA

 

Aprendizado por bem ou na marra

Muito além da temporária falta de chuvas, o alerta para a crise da água, feito há décadas, exige uma mudança de postura inadiável. “A cultura da abundância da água em Minas Gerais tem de mudar. Se não for pelo bem, terá de ser pela dor”, alerta o vice-presidente do Comitê da Bacia Hidrográfica do São Francisco, Wagner Soares Costa. Ele próprio tomou a decisão de pregar bilhetes no elevador do prédio onde mora, no Bairro Santo Antônio, clamando para que os vizinhos economizem água. Wagner propõe ainda que cada família mineira faça uma reunião e discuta medidas possíveis para enxugar o consumo em casa.

O secamento da principal nascente do Rio São Francisco, na Serra da Canastra, é um dos indicativos da urgência dessa reflexão. “As pessoas levaram susto com a seca da nascente e vão continuar levando. Há 22 anos venho alertando que nossa água já está com os dias contados, mas ninguém presta atenção”, protesta o advogado Mário Werneck, presidente da Comissão de Direito Ambiental da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-MG). Ele calcula ter feito em torno de 1 mil palestras gratuitas sobre o tema em todo o país. Em maio passado, distribuiu, pessoalmente, 500 vassouras na Praça Sete, no Centro de BH, como forma de conscientizar a população sobre a necessidade de abandonar o hábito de varrer o passeio com água. Foram também distribuídas cartilhas lembrando que, com medidas simples, cada pessoa pode economizar até 30% do seu gasto diário de água, sem muitos sacrifícios.

Ao viajar para a Serra da Canastra com a intenção de verificar in loco a seca da nascente do Velho Chico, a presidente do Comitê da Bacia Hidrográfica do Entorno da Represa de Três Marias, Sílvia Freedman, conta ter observado um senhor lavando com mangueira uma rua de paralelepípedos na cidade de Pains, a 60 quilômetros do local onde começa a correr o rio da integração nacional. “Desci do carro e perguntei se ele sabia que a nascente do São Francisco, perto da cidade dele, havia secado. Ele respondeu que não”, contou ela, sem entender a finalidade de lavar uma rua.

Gota a gota
Atitudes simples ajudam a reduzir a conta de cada um e, multiplicadas, fazem grande diferença 

Feche os vazamentos
Se notar consumo anormal em sua conta, procure por possíveis fontes de desperdício, como vasos sanitários e torneiras gotejando

Reutilize e economize
A água usada na máquina de lavar roupas pode ser aproveitada para limpar pisos, por exemplo.

Na limpeza
Evite “varrer” a calçada com água. Use vassoura em vez da mangueira

Na garagem
Quando for lavar o carro, reserve a água em um balde

Na cozinha
Antes de lavar a louça, retire os restos de comida e mantenha a torneira fechada enquanto estiver ensaboando

Na lavanderia
Acumule o máximo de roupas possível, para lavá-las de uma só vez. Enquanto escova ou ensaboa as peças, a torneira deve ficar fechada

No chuveiro
Cinco minutos são suficientes para o banho. Fazer a barba ou lavar peças de roupa são práticas que devem ser evitadas debaixo do chuveiro

No lavatório
Ao se barbear ou escovar os dentes, mantenha a torneira fechada. Abra somente pelo tempo necessário


Vassoura no lugar da água

Enquanto de um lado o problema do desperdício de água persiste, há quem tenha mudado hábitos para contribuir com a manutenção dos mananciais. E tem feito coisas simples, como trocar o jato d’água pela vassoura. Varrer o pátio, a calçada e áreas comuns de condomínios tornou-se prática para parte da população. Armazenar e reutilizar a água também tem sido um bom exemplo.

Na moradia da dona de casa Tomoko Sangawa, japonesa de 78 anos que há 50 veio para o Brasil, a torneira só é aberta quando estritamente necessário. Ainda hoje ela conserva hábitos sustentáveis de sua cultura e, desde quando não havia qualquer ameaça de racionamento, adotava medidas contra o desperdício. Ao lavar as vasilhas, usa uma bacia com água e sabão para ensaboar e outra com água limpa para enxaguar. No banho, fecha o chuveiro para se ensaboar e adota o mesmo procedimento com a torneira, ao escovar os dentes. Até a água usada para lavar o arroz é reaproveitada. “É muito boa para aguar as plantas”, ensina.

“Água não é de graça. Temos que agradecer por esse bem e saber usá-lo”, alerta ela. Todos os dias, a oriental se incomoda ao ver pessoas na vizinhança lavarem a calçada. “É um absurdo. O ideal é varrer e usar um regador para baixar a poeira, só quando necessário.”

O autônomo Marcondes Beraldo Ribeiro, de 41, também criou maneiras de aproveitar melhor o recurso natural. Em sua casa, no Bairro Ouro Negro, município de Ibirité, na Grande BH, ele criou um mecanismo para captar a água da chuva, armazenando-a em três reservatórios.

A água usada para lavar roupa é reaproveitada na limpeza do quintal. Marcondes também furou um poço artesiano, mas ultimamente não pode aproveitar a água. Sua casa fica perto de duas lagoas, que estão com o nível baixo em função da seca. “Há quatro, cinco anos, eu tomava banho e pegava peixes grandes lá”, lembra. Agora, o nível baixo se reflete na qualidade do poço. “A água fica muito salobra”, conta.

O almoxarife Lázaro Danftt Santos Silva, de 25, procura reduzir o consumo de água, tanto em casa quanto no trabalho, em um condomínio no Bairro Santo Antônio, Região Centro-Sul de BH. “Meu banho é de 2 minutos e minha mãe usa a água da lavagem das roupas na limpeza do quintal e para molhar o jardim.”

 

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